LEVÍTICO

Autor: Moisés – Composição: 1445-1444 a.C

Desde Êxodo 19 os israelitas estavam acampados à sombra do monte Sinai. Haviam passado pelo grande ato redentor de Javé e agora Ele declarou que eles seriam seu povo. Mas como seria mantido este relacionamento? Os israelitas não poderiam habitar para sempre junto ao Sinai. Tinham de se estabelecer na terra prometida, a Canaã. Naquela terra, porém, seriam confrontados com as práticas cultuais dos cananeus. Para resistir a ela, precisavam aprender as maneiras certas de cultuar a Javé. O local do culto é o Tabernáculo (ou tenda da congregação) que Moisés construiu sob orientação divina. Os detalhes do culto estão expostos aqui em Levítico.

“Serme-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo e separei-vos dos povos, para serdes meus”. Lv. 20.26

O NOME – Levítico é um adjetivo que significa “O livro pertinente aos levitas”.

O PROPÓSITO – Levítico é uma grande seleção de instruções e regulamentos. O último versículo resume bem o propósito do livro:

“Estes são os mandamentos que o Senhor ordenou a Moisés, para os filhos de Israel, no monte Sinai” (27:34).

O livro tem a função de cumprir a promessa feita aos patriarcas: Deus entraria num relacionamento especial com eles. Entretecidas nessas narrativas estão as instruções para o culto do povo a Deus. Esse material não é uma mistura aleatória de histórias e leis. Antes trata do relato como Deus fez nascer uma a nação. Uma história adornada com leis de culto e ordem civil. Tanto a história como a lei são essenciais para a criação de uma nova nação. Esse conhecimento permitia à nação apresentar-se de modo correto à Deus. Devemos encarar a Palavra de Deus não como leis e regulamentos formais de culto, mas como uma forma de ele nos manter santos e com um funcionamento baseado na ordem! O Senhor é Deus de ordem e reverência desde sempre (1Corintios 14.40).

A MENSAGEM – Levítico abre uma janela para o culto do antigo Israel. Nele aprendemos sobre a santidade de Deus. O livro trás a luz a relação entre a santidade e a ética e, mais que isso, fornece o contexto para que se compreenda o significado da morte sacrificial de Cristo.

Deus é Santo. Seu próprio nome é santo (20.3; 22.32) e, no Antigo Testamento, como vimos, o nome retrata a essência da pessoa. A Glória de Deus é a manifestação externa da santidade divina. A aparição de Deus é tão impressionante que faz a natureza curvar-se em temor e gozo. As montanhas se derretem, os relâmpagos brilham, os trovões rugem, a terra estremece (Mq 1,3-4; Jó 9.-10). O fogo, que simboliza a santidade de Deus nesta aliança (Deuteronômio 4.24), é emitido pela Glória e consome tanto os sacrifícios sobre o altar, quanto Nadabe e Abiú (9.23-24; 10.1-2) por terem violado as coisas santas. Assim para proteger os que buscam sua presença Deus se envolve de nuvens e espessa escuridão (Salmos 97.2-3). A beleza inerente na Glória leva a pessoa a Deus, mas com um profundo sentimento de temor e adoração. Sendo santo, Deus é zeloso. Esse zelo ciumento protege a integridade de seu caráter santo. Acima de tudo, Deus não pode tolerar culto a outro deus. Uma vez que não á outros deuses, cultuá-os é falso e destrutivo (19.4; 26.1).

A espinha dorsal da santidade é a justiça. A justiça procura estabelecer a igualdade entre as pessoas. Encontra-se no princípio da Lex talionis (a lei da correspondência exata entre a punição e o crime), “dente por dente” (24.20). Salvo no caso da vida por vida não era bem assim executado no antigo Israel. Antes servia como guia para estabelecer a penalidade no caso de ferimento pessoal. O código de leis era, aliás, uma grande vantagem para o povo, pois elevava a injúria pessoal do delito civil a um ato criminal, impedindo retaliações excessivas (Gênesis 4.23-24). Dessa maneira elevava a dignidade das pessoas. Na corte, o juiz deveria julgar com imparcialidade o caso, se favorecer pobres nem ricos (19.15). Embora a santidade em si seja um traço espiritual, acima da moralidade, em Javé a interligação entre justiça e a santidade significa que qualquer expressão de santidade deve exemplificar justiça. A integridade moral de Javé é inseparável de sua santidade. Deus expressa sua santidade no amor pelo seu povo (Deuteronômio 7.7-10) e na convocação a que este ame ao Senhor seu Deus (Dt 6,5). Os que amam a Deus são exortados: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (19.18;19.34). O chamado para expressar o amor em relacionamentos humanos está em contraposição a dizer calunias (19.16), guardar rancor ou buscar vingança (19.18). Incentiva aquele tipo de compaixão que deixa alguns grãos para serem colhidos para os pobres (19.9-10). O amor faz com que a justiça divina seja temperada com misericórdia.

PECADO E SACRIFÍCIO – Dado que os seres humanos pecam continuamente, a comunhão com um Deus santo, próprio propósito da aliança, exigia um meio de acesso a Deus. Tal meio era a expiação pela apresentação de sacrifícios. O pecado produz conseqüências profundas: responsabilidade pelos danos tangíveis causados pelo pecado; alienação do pecador da pessoa contra quem pecou, alienação do pecador de Deus, alienação dentro do próprio pecador e geração de uma corrupção que contamina o altar e o tabernáculo. Deus providenciou o sistema sacrificial para corrigir o efeito alienante e corruptor do pecado. A exigência de fazer um sacrifício incute no pecador a realidade de que a morte é a pena do pecado. Além disso, os rituais do Dia da Expiação quebravam os poderes do pecado na comunidade, purificavam o santuário da contaminação do pecado e faziam expiação pelo sacerdote e pelo povo como um todo. Dada a propensão humana para o pecado, era preciso apresentar, todas as manhãs, holocaustos em favor de toda a comunidade.

A palavra chave é kipper. Significa “expiar”. A ação de kipper é a própria remoção do pecado. A pessoa que havia pecado deveria apresentar sacrifício logo após o deslize, ou seja, antes que a ira do Senhor se acendesse . Normalmente a ira do Senhor se acendia conta pessoas que insistiam em se recusar a fazer reparações após pecar, não sobre uma única falha. A ação de kipper removia a contaminação gerada pelo pecado e a culpa ou condenação. O texto chave para o significado do uso de sangue no sistema sacrificial é Levítico 17.11: “Por que a vida do animal está no sangue: Eu vo-lo designei para fazer expiação sobre o altar, por vossa vida, porque é o sangue que faz expiação em virtude da vida”. A fonte de vida é o sangue. Quando o animal perde a vida o pecador tem a sua poupada e medita que grande livramento teve. Isso nos faz de fato louvar com mais consciência a Jesus que nos dá vida por seu sangue. Esse é o elemento de substituição na dinâmica do sacrifício.

LEVÍTIVO E O NOVO TESTAMENTO – a legislação sacrificial registrada no livro provê a base para a compreensão da morte de Cristo como sacrifício (1 Cor. 5.7). Familiarizado com o Antigo Testamento o fiel fica mais apto a compreender a singularidade e a supremacia da morte sacrificial de Cristo (Hebreus 7.27; 9.23-28). O Novo Testamento como um todo continua a convocar o povo de Deus à santidade (1 Pedro 1.15-16; Mateus 5.48) e a reforçar as ideias de Levítico com respeito a natureza e à importância da santidade. Lições acerca do culto ao Deus santo e da manutenção da presença de Deus na comunidade dos fiéis são abundantes em todo o Novo Testamento, que também oferece perspectivas da função sacerdotal de todos os que creem (1 Pedro 2.5,9).

LEI E GRAÇA – às vezes se afirma que a salvação, sob a antiga aliança, era adquirida pela realização de obras da Lei, enquanto sob a nova aliança, as pessoas são salvas somente pela fé em Cristo. Essa concepção, em grande parte, é baseada em uma compreensão distorcida dos ensinos do Novo Testamento. Um estudo cuidadoso da Torá (lei) bem como do restante do Antigo Testamento mostrará que as pessoas nunca são salvas por conta de seus esforços próprios – mas pela graça de Deus. Todos os que pecam merecem condenação e morte. Deus, por sua graça, decide aceitar a pessoa na base da fé na sua obra de redenção em Jesus e concede perdão. Paulo compreendia a aliança de Deus com Abraão e afirma que ela não foi anulada pela lei de Moisés (Gl 3.6-18). O autor aos Hebreus, discutindo os atos de culto do Antigo Testamento, afirmou sucintamente: “porque é impossível que sangue de touros e de bodes remova pecados”(10.4). A carta aos Hebreus cita muito Levítico, especialmente os capítulos 6-10 onde se trás informações sobre a comunidade a quem Hebreus foi escrita e dão o significado neotestamentário do ritual levítico.

O sacrifício de Cristo abrange a todas essas realidades e exigências de Deus. E não precisa ser repetido. Assim o ritual da lei mosaica já não é necessário: “aquilo que se torna antiquado e envelhecido está prestes a desaparecer” (8.13).

 

 

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