NÚMEROS – 1450 – 1410 a.C

Números recebe este nome por causa dos dois censos (ou “contagens”) do povo registrados no livro. Mas na verdade, Números é uma continuação de Êxodo. A peregrinação dos israelitas continua pelo deserto do Sinai pelos período de quase quarenta anos, até que eles acampam bem diante da Terra Prometida.

O livro de Números começa com uma ordem de Deus a Moisés no primeiro dia do segundo mês do segundo ano. No decimo segundo dia desse mês “a nuvem se ergueu de sobre o tabernáculo da congregação”. “Os filhos de Israel se puseram em marcha no deserto do Sinai (Nm 10.11). Deuteronômio começa com uma referência ao primeiro dia do décimo primeiro mês do quadragésimo ano, ou cerca de trinta e oito anos após a partida do Sinai. Números, portanto, cobre  um período de  trinta e oito anos e alguns meses, o período de “peregrinações pelo deserto”. Um propósito do livro é registrar o período desde o encontro com Deus no Sinai até a preparação em Moabe para a entrada na terra prometida. Entretanto há mais que isso. A jornada entre o Sinai e Cades-Barnéia, passando pelo golfo de Àcaba, levaria normalmente onze dias (Deuteronômio 1.2). A narrativa deixa claro que a peregrinação de trinta e oito anos foi uma punição pela falta de fé: ninguém da geração incrédula teve permissão de entrar na terra (Nm 14.20-45/Dt 1.35). Números, portanto, não é só um trecho de história antiga, mas outra lista dos atos de Deus. Trata-se de uma história complexa de infidelidade, rebelião, apostasia e frustração, em contraposição à fidelidade, presença, provisão e paciência de Deus.

Conforme a ordem do Senhor acampavam, e conforme a ordem do Senhor partiam. Nesse meio tempo, cumpriam suas responsabilidades para com o Senhor, de acordo com as suas ordens, anunciadas por Moisés.
Números 9:23

Originariamente o livro não possuía título. Os tradutores da LXX (septuaginta: tradução da Bíblia hebraica para o grego) denominaram-no Números por causa das listas dos censos.

A Presença. De um modo tão maravilhoso que não pode ser compreendido, o Senhor fez com que sua presença entre os israelitas fosse conhecida visualmente:

E no dia em que foi levantado o tabernáculo, a nuvem cobriu o tabernáculo sobre a tenda do testemunho; e à tarde estava sobre o tabernáculo com uma aparência de fogo até à manhã. Números 9:15

Quando a nuvem se erguia, o povo caminhava; quando parava, o povo acampava. Enquanto a nuvem repousava sobre o tabernáculo, o povo permanecia no acampamento (v. 17-23). Certa vez quando Miriã e Arão ficaram exasperados com o irmão Moisés “por causa da mulher cuxita [núbia ou etíope] que tomara” (12.1), o Senhor convocou um encontro dos três na tenda da congregação (v 4). Ele apereceu “na coluna de nuvem” e pronunciou palavras solenes:

…se entre vós houver profeta, eu, o Senhor, em visão a ele me farei conhecer, ou em sonhos falarei com ele.
Não é assim com o meu servo Moisés que é fiel em toda a minha casa.
Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; pois ele vê a semelhança do Senhor. Números 12:6-8

Dessa e de outras maneiras o Senhor dava a conhecer a sua presença. As histórias acerca da sua presença contínua durante todo o período do deserto deve ter sido contada e recontada ao longo das gerações, pois esse tema volta a ocorrer séculos mais tarde na mensagem dos Profetas (Oseias 2.14-15; Jeremias 2.1-3).

A Providência de Deus. O período do deserto foi uma demonstração constante da provisão do Senhor nas necessidades do povo. Números destaca esse cuidado de três maneiras: (1) histórias sobre orientação, proteção e suprimento materiais (10.11-14.45; caps 16 e 17; 20-25; 27.12-23; 31.1-33.49). (2) as instruções na lei de Deus (1.1-10.10; cap. 15; caps 18-19; 26.1-27.11. (3) a instrução de padrões efetivos de liderança (11.1-14.45; 16.1-35; 27.12-23). Deus proveu o maná para alimentar o povo e quando este se cansou da dieta vegetariana, enviou codornizes (Êx 16). Essa história é desenvolvida em Números 11. Ali o cuidado providencial de Deus é visto em contraposição às murmurações do povo. A provisão das codornizes foi, ao que parece, temporária; o maná, porém, continuou por toda a peregrinação cessando apenas quando os israelitas entraram em Canaã (Josué 5.12). Quando Moisés narra as maravilhosas provisões de Deus a seu povo no deserto amplia além da questão dos alimentos:

E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não.
E te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram; para te dar a entender que o homem não viverá só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor viverá o homem. Nunca se envelheceu a tua roupa sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos.
Sabes, pois, no teu coração que, como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o Senhor teu Deus. Deuteronômio 8:2-5

As provisões de Deus esboçadas em Números moldaram o culto de Israel e julgaram sua desobediência durante a jornada. Também prepararam o povo para viver em comunidade respeitando as leis, as cerimônias, os regulamentos para sacrifícios e ofertas, as festas da Páscoa e Pentecostes (semanas), dia da expiação, festa dos Tabernáculos, diretrizes para a divisão da terra e a reserva de cidades para os levitas, tudo isso eram instrumentos da Graça de Deus para lhes dar condições de viver como seu povo.

Paciência. Uma afirmação cardeal da teologia israelita é que o Senhor é longânimo. Números relata alguns incidentes em que se fundamentava essa crença. Deus foi paciente com Moisés ao tentar se desvencilhar do cargo de liderança. Moisés é um reflexo da longanimidade de Deus sob o povo que reclamava constantemente com saudades dos alhos porós, carnes e bolos do Egito, mesmo que comessem sob o chicote, na condição de escravo. Por isso liberdade de verdade é andar com Deus, pois o ser humano é capaz de se acostumar a uma situação de escravidão sem a libertação por parte de Deus. Miriã e Arão murmuraram, Arão coadunou com a fundição do bezerro de ouro.

Deus das nações. A história de Balaque e Balaão é uma afirmativa de Deus de que sobrepõe sua a soberania a todas as nações por mais fortes que sejam. Os israelitas foram impedidos de atravessar por Edom, então contornaram (21.4). Eles teriam de cruzar território amorreu, mas o rei Seom recusou. Os israelitas derrotaram a ele e a seu povo e tomaram a terra (21-25). Depois entraram em Moabe, última região entre eles e Canaã, a terra prometida, então Balaque, rei de Moabe, buscou ajuda de Balaão, um profeta da Mesopotâmia, conhecido por seu poder de pronunciar maldições eficientes (22.6). Mas Deus persuadiu Balaão a não o fazê-lo com o episódio da jumenta que falou com o profeta dizendo que um anjo a impedia de seguir. O anjo então falou para Balaão ir com os moabitas, mas ao invés de amaldiçoar Israel, abençoasse. Balaão assim fez. Depois que Balaão abençoou Israel pela segunda vez, o Espírito de Deus veio sobre ele:

Então proferiu a sua parábola, e disse: Fala Balaão, filho de Beor, e fala o homem de olhos abertos; Fala aquele que ouviu as palavras de Deus, e o que sabe a ciência do Altíssimo; o que viu a visão do Todo-Poderoso, que cai, e se lhe abrem os olhos. Vê-lo-ei, mas não agora, contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela procederá de Jacó e um cetro subirá de Israel, que ferirá os termos dos moabitas, e destruirá todos os filhos de Sete. E Edom será uma possessão, e Seir, seus inimigos, também será uma possessão; pois Israel fará proezas. E dominará um de Jacó, e matará os que restam das cidades. Números 24:15-19

A profecia é notável por sua referência ao domínio de Jacó, mas a mais citada é a passagem que trata da estrela e do cetro (v 17). É uma profecia messiânica. Estrela (Gn 37.9) e especialmente Cetro simbolizam domínio (Gn 49.10; Sl 45.6), de modo que a profecia fala de um governante que sairá de Israel para derrotar os inimigos do Senhor. Uma fagulha de esperança em um Messias que dominaria todas as nações com justiça e paz.

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