VENCENDO O TÉDIO

(série Ensaios de vida plena)

Eclesiastes 1

Como vive a pessoa que já experimentou muito da vida e acha que não tem mais nada a experimentar? Como vive a pessoa que diz com frequência “já vi”, “já fiz”, “já sei” e outros tantos “jás” que se possa imaginar? Como vive uma pessoa para quem a vida tornou-se uma repetição enervante  e chegou ao fastio da mente e das sensações: experimenta sempre o mesmo e chega sempre no mesmo lugar? Como vive quem se debruça sobre a vida para observá-la e chega a conclusão de que tudo o que vai acontecer já aconteceu?

Essa pessoa vive com tédio.

Quem vive assim nunca faz um programa que o satisfaça e sente-se corroído por dentro. A monotonia toma conta e vai drenando aos poucos a energia que os grandes desafios não foram capazes de extinguir.

Por um fim ao tédio é um dos desafios que o pregador sábio propõe em Eclesiastes. Já se disse que o essencial na vida é invisível aos olhos, que as coisas mais centrais passam desapercebidas pela visão. Mas o Eclesiastes não dá sinais de que assina embaixo. Ele olha, descreve o que vê, analisa e chega a conclusões. Olha para o mundo, seu jeito de funcionar e chega a conclusão de que é tudo vaidade. São bolhas de sabão que estouram com qualquer variação do vento, como algodão doce. Para o Eclesiastes o que se vê é o que existe, o que importa são as linhas: as entrelinhas ele dispensa.

Analisando tudo o que se passa na vida do humano sobre a terra ele não apenas critica, mas deixa dois convites: o primeiro é pensar, mesmo sabendo que pensar dói. A sinceridade do pregador é a prova de que ele não está disposto a se enganar, a suportar uma ilusão visando omitir as dificuldades da sua existência – para quem pensa não existe espaço para a alienação. O mundo que ele vê é repetitivo e enfadonho e assim ele o descreve. Se pretendemos entender o que o Eclesiastes quer nos dizer precisamos raciocinar e desbancar a irracionalidade. Não somos animais, portanto quando pensamos exercemos uma atividade sagrada.

O segundo convite que ele faz é vencer o tédio realçado pelo raciocínio. Precisamos vencer o tédio para que o dia ganhe sentido. Cada ser humano é responsável por atualizar em sua própria existência, o sentido que a vida tem em si mesma. O tédio é uma ameaça porque faz com que deixemos de admirar eventos sagrados que nos convidam sempre a louvar ao Senhor.
“Este é o dia que nos fez o Senhor, vamos nos alegrar e regozijar nele”. SL 118.24

Eclesiastes propõe um enfadonho sistema cíclico no qual ele não vê sentido. Salvo uma tragédia, todos os seres humanos seguem o mesmo ciclo: nascem, crescem, se reproduzem, envelhecem e morrem. Esse ciclo é seguido por gerações anteriores a nós e seguirá após passarmos se Jesus não retornar em sua glória em nossa geração.

Até no vento, que Jesus descreveu como algo que vai e vem sem dar notícia, o Eclesiastes enxergou um ciclo fixo. Ele sabe que o vento segue o padrão: venta do sul para o norte, sempre. Depois disso, venta do sul para o norte novamente. Ele percebe que os rios correm para o mar sem que esse nunca se encha. Ainda que corram para lá, para lá voltarão a correr. Os estágios desse ciclo hoje são conhecidos: o rio vai para o mar, em todos os lugares a água evapora, o vapor se condensa em nuvens que desabam em chuva, que por sua vez mantém os rios correndo para o mar. Esse ciclo fica se repetindo. O sol também é um exemplo: se põe e em poucas horas nasce de novo. Olhar para os ciclos intermináveis da natureza sem dar significado a eles se torna enfadonho.

Até as pessoas podem ser enfadonhas e causar tédio. Apesar de toda a diversidade da identidade humana  e de toda a complexidade da alma humana, as pessoas podem padronizar discursos, atitudes, comportamentos  e maneirismos, passando a integrar o famoso bloco maria vai com as outras. Um fenômeno conhecido como manada humana. Torna a sociedade parecida com uma fileira de soldadinhos de chumbo, sem feição no rosto, um montede iguais, fazendo do multiforme espectro humano uma pasta entediante. Você já conheceu alguém que conta sempre os mesmos  problemas? conta sempre as mesmas histórias? Alguém que você tem certeza que não vive  em novidade de vida como projetou Jesus?

 

VISLUMBRANDO ESPERANÇA

“Ninguém se lembra dos que viveram na antiguidade, e aqueles que ainda virão tampouco serão lembrados pelos que vierem depois deles”. (11)

Aparentemente esse comentário do Eclesiastes mais do que infundir esperança, faz ainda mais densa a escuridão. Os que passaram não deixam rastro, nossa geração também não deixará. Existimos, completamos os ciclos da vida, mas a marca que construímos provavelmente não permanecerá. As próximas gerações dificilmente ouvirão falar de nós.

Essa insistência dos coaches pessoais a respeito da necessidade de deixarmos legado se esvazia para Eclesiastes. Ele compreende que a maioria dos humanos caminha para a insignificância histórica. Então onde está a saída do bosque do tédio?

Na constatação de que cada geração começa sua existência do zero. Nós consideramos que a cultura é herdada e amolda a geração seguinte. É verdade, mas também é verdade que cada geração tem de decidir o que fazer com a herança que recebeu.

Nós vimos uma geração confrontar o status quo com calças jeans rasgada sem sinal de protesto ao imperialismo econômico e cultura, enquanto outra compra as mesmas calças a preços exorbitantes nas lojas de grifes dos shoppings de luxo. Maio de 68 terminou sim. Cada geração é responsável por inventar seu próprio mundo.

O que os pais entregam aos filhos é carga genética e já é muita coisa. Mas as experiências dos filhos são únicas, mesmo que os pais se vejam neles. A plenitude de experiência de cada pessoa, de cada geração, é singular. Essa plenitude de experiência é algo que não pode ser vivenciado por outra pessoa nem ensinado pela cultura. A cultura põe à disposição mas a vivência é algo bem pessoal. Cada maneira de agir é singular, cada experiência é intransferível.

Embora o pregador proponha que não há nada novo debaixo do sol, ele também sugere que não há apenas uma maneira de viver. Se o tédio causado pela repetição é o problema, a solução é a experiência individual –  a chance que cada um tem de  fazer pela primeira vez o que as gerações anteriores têm feito à séculos.

Tédio.

“Nada é mais insuportável para o homem do que estar em pleno repouso, sem paixões, sem afazeres, sem divertimento, sem aplicação.”

“Ele se sente então todo o seu nada, seu abandono, sua insuficiência, sua dependência, sua impotência, seu vazio.”

“Imediatamente nascerão do fundo de sua alma o tédio, o negrume, a tristeza, a mágoa, o despeito, o desespero. ” Blaise Pascal

 SUPERE O TÉDIO

Torne a experiência pessoal

O Eclesiastes nos mostra a importância de ocupar a mente também com as pessoas que agem diferentemente dos ciclos dos rios, do sol e do vento. Na tradição espiritual judaica Deus se apresenta como Deus de Abraão, De Isaque e de Jacó. Na hora de se identificar Deus escolheu citar nomes de pessoas e não de objetos naturais.

O salmista reconhece que Deus criou as estrelas, mas vai além e demonstra que ele as chama pelo nome: Conta o número das estrelas, chama-as a todas pelos seus nomes.(147.4).

Deus singulariza a sua relação com o universo, imagina coma gente!

Há experiências tão particulares que passam a ser universais. Cada vez que alguém fala pela primeira vez, há uma celebração. É como se pela primeira vez a humanidade toda estivesse falando e é mesmo! Cada vez que uma geração aprende a andar de bicicleta, a manejar uma ferramenta é como se mundo começasse novamente a realizar estas tarefas importantes. Quem está aprendendo tem nisso uma experiência que mudou sua vida. Cada vez que alguém dá o primeiro beijo, o mundo inteiro se supera e se apaixona novamente.

Virar o botão em casa e controlar a chama do fogão é enfadonho, pois está ali à disposição todo o dia. Agora um náufrago conseguir isso em uma ilha deserta, acende nossa esperança e confiança na capacidade da façanha humana. Nós podemos nos superar!

Não podemos nos deixar levar por generalizações. A generalidade trás o tédio, mas a particularidade o afasta.

“Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude, antes que venham os dias difíceis e antes que se aproximem os anos em que você dirá: Não tenho satisfação neles”;
Eclesiastes 12:1

AJUSTE O FOCO DA SINGULARIDADE

Uma coisa é a gente falar de maneira genérica dos rios, outra coisa é falar sobre o rio Amazonas, Mampituba, Guaíba. Os dias são sempre os mesmos quando você olha para o calendário? Quando alguém menciona 11 de setembro o tédio se vai, pois você focaliza algo histórico neste dia que foi diferente. Isso é tornar a experiência singular.

O seu aniversário é mais um dia no calendário? E o do casamento? Porque esquenta o coração pensar nestes dias? Porque são singulares.

As pessoas seguem o mesmo rumo. Todos os dias um monte de gente nasce e morre. Mas isso se torna bem diferente quando é seu filho que nasce. Todos os dias pessoas se vão, mas quando é seu pai, esse dia é diferente e essa situação para você jamais será apenas um a menos na média demográfica. É algo singular para você.

Quem já viu a trivialidade do médico colocando gel na barriga da esposa ao analisar aquele feto de alguns milímetros com um coraçãozinho no meio batendo forte, sabe o que é singularidade. Para o doutor é algo normal, rotina do dia. Mas para os pais que se debulham em lágrimas não! É sublime e singular. A generalidade trás o tédio, torna tudo trivial. A singularidade deixa tudo com cor e apaixonante.

DÊ ÊNFASE NA VITALIDADE

O que é vivo não é entediante. É possível ficar entediado olhando um bicho de pelucia, mas cachorros e gatos dificilmente são entediantes. Eles se movimentam, brincam, ficam acuados, fazem cara de coitados e pedem afagos.

“Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, disse Heráclito de Éfeso. Primeiro, porque as águas do rio fluem. Mas também porque nós não somos os mesmos, somos flutuantes.

Olhando o casamento de muitos vemos dizeres:”já sei de tudo, estou casado há mais de vinte anos com ela”. Mas não é verdade. Ela não é a mesma de vinte anos atrás, nem nós  o somos. No casamento há três entidades: a mulher, o homem e o relacionamento. O relacionamento faz o meio de campo entre os dois. Quando as coisas vão mal, alguns imaginam que a troca de cônjuge resolve, quando o certo é tratar do relacionamento. E porque há tanto tédio nos casamento? Entre outras razões porque homem e mulher fincam o pé onde se sentem confortáveis dizendo não às mudanças e sem depositar crédito e tempo no relacionamento, sempre cada um na sua, vivendo sua mesmice.

Portanto, vá, coma com prazer a sua comida, e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz.
Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo.
Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. Eclesiastes 9:7-9

SE DISPONHA À INSACIABILIDADE

A insaciabilidade saudável é a capacidade de fazer sempre o que sempre fizemos, como se o fizéssemos pela primeira vez. Comer é um exemplo de insaciabilidade. Cada refeição parece única porque serve para alimentar para aquele momento. O café da manhã não serve para matar a fome do almoço. Comer é uma atividade repetitiva, mas comer bem quando estamos com fome dá a sensação de que estamos comendo pela primeira vez.

Tomar banho da mesma forma. Quantos banhos você já tomou na vida? Depois de dias estressantes um banho tem um valor que só aquele momento vai dizer. E o de amanhã? Não importa, o de hoje é bom e isso basta.

O mesmo se pode dizer dos amigos. É possível passar um sábado inteiro com amigos de verdade e mesmo assim topar um convite para um almoço dominical. Amigos não tem prazo de validade, são sempre bem vindos. O que essa insaciabilidade significa? Que nós fomos feitos para viver umdia de cada vez.

Ficamos ansiosos porque costumamos fazer uma prova na faculdade preocupados na reunião de amanhã, na hora de reunião já estamos pensando no almoço e no almoço já estamos pensando em como resolver o problema da umidade do apartamento.

Um mestre disse ao seu pupilo: “a diferença entre o sábio e o tolo é que tanto o sábio quanto o tolo respiram, mas só o sábio tem a consciência de estar respirando.”

Quem não presta atenção nas sensações e sentimentos não registra prazeres e dores. A vida fica vazia e o tédio se instala. Quando a gente começa a se dar conta de que não está diante demais uma refeição, de mais um banho, mas daquela única refeição e de um único banho do momento, a insaciabilidade deu as caras e ela lança o tédio para longe de  nosso viver.

A generalidade trás o tédio. A singularidade o espanta.

E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Lucas 9:23

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *