ENSAIOS DE VIDA PLENA

“Assim, cheguei a esta conclusão Deus fez os homens justos, mas eles foram em busca de muitas intrigas.” Ec. 7.29

Olhando ao nosso redor vemos injustiça. Não será necessário analisar minuciosamente, pois ela salta aos olhos. A injustiça é maleficamente criativa. Pode estar no menino com frio pedindo esmola no trânsito, nas sequelas irreparáveis do rapaz atropelado por um motorista bêbado, na traição profissional que rouba uma oportunidade, no abuso sexual, na violência doméstica. A injustiça encontra lugar tanto nos altos escalões das polícias e do judiciário, quanto na agressão do caçula da casa pelo irmão mais velho, no quarto do pai de família que, indignado, assiste no telejornal a mais denuncias contra políticos corruptos.

Além de jogar no lixo todo o empenho a favor do bem, a injustiça exerce outro efeito nocivo, que é o de contaminar a alma com desânimo e roubar a esperança. Parece que recebemos uma configuração de fábrica e queremos ver os bons recompensados e os maus punidos.

Você se dedicou ao trabalho, se dedicou nas tarefas e foi honesto? Ótimo. Será promovido. Você foi desleixado, dormiu sobre a mesa de trabalho mais do que dorme na sua cama? Ai de você. Será despedido, ou no mínimo, receberá uma advertência. Mas sabemos que a vida não é assim. A injustiça é chocante e disseminada.

O cristão se ressente da injustiça no mundo porque isso põe um obstáculo enorme quando tenta equalizar o mal no mundo, com um Deus bom. A Bíblia declara insistentemente que Deus é bom (Dêem graças ao Senhor, porque ele é bom. O seu amor dura para sempre! Salmos136.1). Esse conflito – que é mais intenso para o cristão do que para qualquer outra pessoa de outra confissão de fé – já fez muitas vítimas. Os que não abandonaram totalmente a fé, sofrem com os efeitos nocivos de não meditar sabiamente sobre isso. A injustiça nos joga dentro de um turbilhão sem dó de uma crise existencial. Desde Epicuro e seu famoso dilema: “se Deus pode acabar com o mal e não o faz, não é bom, e se não pode, não é onipotente”. Isso fere o cristão que se debate com a teodiceia (discute como considerar concomitantemente verdadeiras as afirmações: Deus é bom, Deus é todo-poderoso e o ser humano sofre).

Dizem que a existência de Deus é necessária a fim de que haja justiça no mundo. Na parte do universo que conhecemos há grande injustiça e, não raro, os bons sofrem, os maus prosperam, e a gente mal sabe qual destas coisas é molesta. Bertrand Russel

[a maturidade cristã deve nos fazer saber pensar sobre isso. O mal existe e é causado pelo próprio homem que colhe o que planta (Gál. 6.7). O mal separa os que hão de herdar a salvação, quem persevera e se santifica na fé em Jesus recebrá seu galardão (MT 24.13). O mal existe e às vezes é utilizado por Deus para desbaratar maus maiores (Isaías 45.7). Deus não é autor do mal moral, mas às vezes, não impede calamidades para desbaratar a força do ímpio. A própria natureza está desordenada esperando a manifestação dos filhos de Deus (RM 8).]

Um ateu considera isso uma pedra de tropeço para a fé. Olha o mundo e vê a injustiça que alimenta sua duvida sobre o que é mais molesta. Mas ele também espera que os justos sejam recompensados e os maus punidos, esse diagnóstico parece independer de confissão religiosa (embora fosse interessante ver de onde um ateu tira seu conceito de justiça).

O Eclesiastes diagnostica esse estado de coisas com sua precisão matemática, isso realça a profundidade de sua agonia (4.1-3).

QUANDO A INJUSTIÇA SE MANIFESTA?

Quando alguém desfruta do trabalho alheio (2.21): Pois um homem pode realizar o seu trabalho com sabedoria, conhecimento e habilidade, mas terá que deixar tudo o que possui como herança para alguém que não se esforçou por aquilo. Isso também é um absurdo e uma grande injustiça.

Você se esforça para ser o melhor profissional do mercado, luta pelo reconhecimento, vai guardando recursos para o futuro e construindo seu patrimônio. Você é um empreendedor talentoso e suas realizações tornam-se visíveis. Então você adoece. Você se vai. Quem fica com tudo?

Outra pessoa que nunca mexeu um dedo para por tudo aquilo em pé. Se ela for sem juízo, seu patrimônio (que não é mais seu) vira pó.  O pregador chama isso de vaidade de vaidades.

Quando os agentes da justiça se tornam injustos (3.16): Quando constatamos que a ordem foi inversa, que os papéis se inverteram. Por trás dos meninos do tráfico, há pais omissos e chefões que nunca dão a cara à julgamento, por trás dos chefões, milícias e secretários de justiça e no alto do escalão um político populista e carismático, cheio de frases de efeito.

Causa frustração tremenda ver que o próprio agente que deveria ministrar justiça se incumbe de perverte-la. É como apoiar-se em uma bengala podre de cupim.

Quando a hierarquia perpetua a injustiça (5.8): Governador, secretario, carcereiros, traficantes, ladrões de rua uma hierarquia demoníaca oprime o pobre que sai cedo, no escuro para trabalhar e é roubado, estuprado e violentado. É quando todos têm medo de se impor à injustiça, delegando para o seu superior a tomada de decisão que a injustiça se espalha. É na omissão deliberada que o mal se alastra.

Quando os virtuosos são derrotados pela maldade (7.7): Eugene Peterson traduz de maneira forte este versículo: “A brutalidade entorpece até mesmo o sábio, e destrói o mais forte dos corações”. Assim passamos a ter muita desconfiança de pessoas que tínhamos como parâmetro de integridade, mas se envolvem com política em um grupo notoriamente corrupto. Muitos dizem de alguns: era tão bom quando começou, mas foi seduzido no meio dos maus (Ex. Empresas que trabalhavam com nota fiscal, agora dão desconto por recibo). Quando a maldade vence a virtude, a injustiça está presente.

Quando os bons morrem cedo (7.15): para Eclesiastes, é difícil compreender porque um pai deve morrer aos 26 anos e deixar filhos que queriam sua presença (Ed Renê Kvitz). Dentro da nossa lei de retribuição imaginamos que pessoas boas deveriam ser longínquas, senão eternas.

Por fim: a injustiça se manifesta quando há escassez de justos (7.20): Assim como nós, Salomão enxerga que parece viver em um mundo onde injustiça está generalizada; é regra em vez de excessão. A justiça deveria ser a regra, ao invés da exceção.

Descremos da justiça quando percebemos que mais pessoas compareceram ao velório do traficante carioca “Escadinha”, do que no velório do grande poeta Carlos Drummond de Andrade ocorrido na mesma semana (8.14).

Por isso Eclesiastes chegava a pensar que quem estivesse morto, ou um bebê que não chegasse a ter vivido estava em melhores condições do que nós que aqui vivemos.

É melhor isso a ver ausência de solidariedade, poder nas mãos de opressores, lagrimas dos oprimidos e ninguém para os consolar.

QUATRO PROPOSTAS CONTRA INJUSTIÇAS

Existir em um mundo injusto exige sabedoria e inspiração do alto e isso Salomão foi contemplado.

Satisfação em detrimento da competição (4.4-6):

Essa sim é uma proposta radical para os nossos dias: competir menos, ambicionar menos, viver mais. Não é um convite a preguiça, afinal o tolo destrói a própria vida. Tolo é aquele que não se esforça, não trabalha e só consome. Quem se contenta com o que tem é mais sábio do que aquele que vive se consumindo de inveja e desejando o que não tem. Não é só o preguiçoso é que é tolo, mas também aquele que trabalha demais sem propósito. Exagera na medida do esforço para ganhar dinheiro, colocando em perigo a saúde, amizades, não investe no casamento e não vê os filhos crescerem. Isso é correr atrás do vento. Vaidade. Pecado.

[O que é ser rico? Ter 100 dólares a mais que meu cunhado]

“Quem me dera ao menos uma vez, provar que quem tem mais do que precisa ter, quase sempre se convence que não tem o bastante”. R. Russo.

O sábio pregador percebeu que o que faz o homem se matar de trabalhar é a competição e isso é nocivo. Muitos não dormem bem porque tem muito e tem medo de não conseguir manter esse estilo de vida.

[Max Gheringer conta história de uma vendedor que conheceu, que era alheio ao mercado: Era vendedor: batia cartão na hora certa, não queria promoção e não se degladiava com colegas por postos mais altos, só cumpria a meta mínima e ia para casa feliz. Depois de 15 anos ainda estava assim, mas muitos dos colegas não! E você? Sou vendedor. Todo mundo correndo atrás de tudo o que sempre está faltando né doutor! Meus filhos estão grandes, agora tenho netinhos e comprei uma chácara para reunir a família!].

Será que ele é bem sucedido aos olhos do mercado corporativo? E aos olhos de Deus? Cuidado há outras maneiras de classificar os bem sucedidos na vida, de categorizar aqueles que não conseguem promoções, não assumem diretoria na empresa. Bem sucedido é aquele que é feliz com o seu punhado e sabe valorizá-lo, vivendo tudo o que pode, tranquilo, satisfeito e grato a Deus pelo que tem.

Esse não é acomodado, porque se esforça. Não come da própria carne, não capitaliza sua saúde. Ele não vive de braços cruzados, mas sabe distinguir a ambição da ganância.

Outra proposta do Eclesiastes é a diversão em detrimento da acumulação (4.8): Trabalhar demais só para fazer a riqueza crescer é um caminho que desemboca na solidão. Foi isso o que esse homem não conseguiu enxergar. Trabalhou muito, acumulou muito, mas para que serviu isso afinal? O trabalho se tornou um fim em si mesmo e, por causa disso, as pessoas ficaram de lado. Não tinha filhos nem irmão e não se preocupava com isso. Quem trabalha desse jeito é até bom que não tenha filhos, pois colocará pessoas no mundo para sofrerem. Numa vida dessas não há romance, paixão, amigos, viagens, gente com quem dividir um belo jantar. Há muitos interesseiros de ocasião, dependentes aos montes e beijos pagos. Quem dá mais importância ao dinheiro do que aos afetos acabará afligido pela solidão.

Quer deixar algo para seu filho? Deixe capacidade de se sustentar, de produzir o próprio sustento, de amar e ser amado de ser um ser humano cuja presença é gratificante. O mundo já está cheio de parasitas.

[Pastor foi convidado a jantar num dos mais chiques condomínios de SP: mansões a venda. “Muitos casais se separam enquanto constroem a casa”].

Valores esquisitos que não são amparados pela Palavra de Deus. Deixam de viver para construir uma casa e quando têm a casa, já não tem vida comum. Já não têm o maior tesouro de uma vida: as pessoas que amamos. Juntos a gente se diverte! Um dia faltou luz e conversamos a noite toda! Foi bom.

Cooperação em detrimento do isolamento (4.9): “Melhor é serem dois do que um” diz o Eclesiastes, mas porquê? Porque maior é a recompensa do trabalho quando é feita por duas pessoas. “Pobre do homem que caie não tem quem o levantar”.

[Amigo militar: não tinha ninguém para passar protetor nas minhas costas]

No inverno dois se aquecem dormindo juntos. Dois se defendem melhor. Não viva para ganhar sozinho, não tente construir sozinho e não tente ganhar apenas para você: compartilhe. Esse texto não se refere apenas à união conjugal.

[Davi e Jonatas – ganharam menos , mas ao juntar o que ganharam fora muito mais do que se tivessem ganhado sozinhos. Desfrutaram juntos e venceram juntos.]

Nossa geração gosta do ditado: “cada um por si, Deus por todos e o diabo que carregue o último”. Tem as de para choque de caminhão: “Deus deu a vida para que cada um cuide da sua”. O Eclesiastes propõe diferente: em um mundo injusto, cada um por si não é a melhor maneira de viver. Melhor é a cooperação [presidência do senado].

Realização em detrimento da reputação (4.13-16): Fala sobre um rei que começou jovem pobre e sábio e, com o passar do tempo, tornou-se rico, poderoso e tolo. Enquanto era jovem governava para o povo que o admirava e seguia. Quando construiu uma reputação – fez a cama e se deitou nela – surgiu outro jovem, sábio e pobre que arrebatou o coração do povo. O rei velho e tolo, que já não tem o coração ensinável e não aceita conselhos, só pensa em si mesmo, em como manter-se soberano, não em como servir seu povo. Maquiavel ensinou que o rei deve ser temido ao invés de amado.

“Nasce uma questão, a saber: é melhor ser amado do que temido ou ao contrário? Responder-se-á que se desejaria ser uma coisa e outra; mas, como é difícil casá-las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando se haja de optar por uma das alternativas.”

Quem é o verdadeiro rico senão aquele que consegue produzir riqueza? Pode parecer que rico é aquele que possui muito dinheiro no banco, mas quem só tira e não deposita é um consumidor tolo. Uma hora ficará descapitalizado, pois a bolsa quebra, bancos quebram, países dão calotes bilionários, o dólar oscila e riquezas somem. No fim você só pode contar com o que produz. Considerando que vivemos em um mundo injusto construa sob a paz do Senhor, até onde as pernas alcançam sem matar o coração. Fique rico se for possível, mas não perca a família atrás disso. Seja promovido, mas não deixe de ver os filhos crescerem. Faça poupança, mas viaje com amigos e partilhe de bons momentos com seus irmãos. Não caia na armadilha de viver correndo atrás de dois punhados. Seja grato pelo que o Senhor já deu, não se sobressalte com o que falta. Em Jesus temos tudo o que precisamos e paz na alma que é o que nos faz ter vida plena. Não fique competindo com cunhado ou vizinho. Reparta, compartilhe, invista no seu potencial de gerar riquezas e não descanse nos louros que conseguiu um dia. Produza sempre enquanto viver. O grande sonho do brasileiro médio é acumular para parar de trabalhar, besteira. Jesus disse que o Pai trabalha até hoje e ele também. Vamos ter a capacidade de gerar, compartilhar e celebrar sempre. Isso não é correr atrás do vento!

Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor. E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo. Ef. 5.15-21

 

 

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