SATANÁS E OS DEMÔNIOS

SATANÁS E OS DEMÔNIOS

Estes seres espirituais criados, que um dia foram anjos bons, pecaram e perderam o privilégio de servir a Deus levantam muitas questões no seio da igreja: como cristãos devem encarar hoje a batalha espiritual com Satanás e os demônios?

Os anjos são seres espirituais criados, dotados de discernimento moral, criados para servir ao povo de Deus (Hb 1.14), de elevada Inteligência, mas desprovidos de corpos físicos. Demônios são anjos maus que pecaram contra Deus e hoje continuamente praticam toda a espécie de mal no mundo.

A origem

Quando Deus criou o mundo, “viu Deus que tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn. 1.31). Isso significa que mesmo o mundo angélico que Deus criara não tinha ainda anjos maus ou demônios naquele momento. Mas já em Gênesis 3, vemos que Satanás, na forma de uma serpente, tentava Eva ao pecado (Gn 3.1-5). Portanto, em algum momento entre os eventos de Gênesis 1.31 e Gênesis 3.1 houve uma rebelião no mundo angélico, na qual muitos anjos se voltaram contra Deus e se tornaram maus. O Novo Testamento fala disso em dois trechos: Pedro registra: “Deus não poupou os anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo” (2 Pedro 2.4). Judas também diz que os anjos “que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande dia” (Jd 6). Novamente enfatiza-se o fato de terem sido afastados da glória da presença de Deus e de sua atividade se achar limitada (metaforicamente, estão em algemas eternas), mas o texto não implica que a influência dos demônios foi afastada do mundo, nem que alguns demônios são mantidos em algum lugar de castigo longe do mundo, enquanto outros podem influenciar. Antes, tanto Pedro quanto Judas nos dizem que alguns anjos se rebelaram contra Deus e se tornaram hostis adversários de sua Palavra. Seu pecado, aparentemente, foi o orgulho, a recusa de aceitar o lugar e função que lhes foi reservado, pois “não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio” (Jd 6).

Em Isaías 14 há, o que é considerada uma referência à queda de Satanás, o príncipe dos demônios. Descrevendo o juízo de Deus contra o rei da Babilônia (rei terreno, humano), a partir de certo ponto Isaías passa a uma linguagem que parece forte demais para referir-se a qualquer meramente humano:

Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!
E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.
E contudo levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo. Isaías 14:12-15

Essa linguagem de subir ao céu e exaltar o trono, e dizer “Serei semelhante ao Altíssimo”, sugere fortemente a rebelião de uma criatura angélica de grande poder e dignidade. No discurso profético hebraico, não é incomum passar de descrições de acontecimentos humanos para descrições de eventos celestes que lhes sejam análogos, e que os acontecimentos terrenos retratem de modo limitado. Sendo assim, o pecado de Satanás é pintado como orgulho e a tentativa de se igualar a Deus em posição e autoridade.

Satanás como chefe

Satanás é o chefe dos demônios. Esse nome é mencionado em Jó 1.6, onde lemos: “…os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles” (ver também Jó 1.7-2.7). Aqui ele aparece como inimigo do Senhor, que impõe severas tentações a Jó. Do mesmo modo, perto do fim da vida de Davi, “Satanás se levantou contra Israel e incitou Davi a levantar o censo de Israel” (1 Crôn. 21.1). Além disso, Zacarias teve uma visão e contemplou “o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do Senhor, e Satanás que estava à mão direita dele para se lhe opor” (Zc 3.1). O nome Satanás é uma palavra hebraica (satán) que significa “adversário”. O Novo Testamento também usa o nome “Satanás”, simplesmente tomando-o emprestado ao Antigo Testamento. Assim Jesus, sendo tentado no deserto, fala a Satanás diretamente, dizendo: “Retira-te Satanás” (Mt 4.10) ou “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago “ (Lc 10.18).

A Bíblia usa também outros nomes para Satanás. Ele é chamado “Diabo” (somente no Novo Testamento: Mt. 4.1, 13.39; 25.41; Ap. 12.9; 20,2), “serpente” (Gn 3.1, 14; 2 Co 11.3; Ap. 12.9, 20,2), “Belzebu” (Mt 10.25; 12.24, 27; Lc 11.15), “príncipe deste mundo” (Jo 12.31; 14.30; 16.11), “príncipe da potestade do ar” (Ef 2.2) ou “maligno” (Mt 13.19); 1 Jo 2.13). Quando Jesus fala a Pedro: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogita as coisas de Deus, e sim dos homens (Mt 16.23),ele reconhece que a tentativa de Pedro de evitar que sofra e morra na cruz é na verdade uma tentativa de afastá-lo da obediência aos desígnios do Pai. Jesus percebe que a oposição vem em última análise não de Pedro, mas do próprio Satanás.

A atividade dos demônios

Satanás originou o pecado. Satanás pecou antes que qualquer ser humano o fizesse, como se depreende do fato de ele (na forma de uma serpente) ter tentado Eva (Gn 3.1-6); 2 Co 11.3). O Novo Testamento também nos informa que Satanás “foi homicida desde o princípio” e é “mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44). Também diz que “o Diabo vive pecando desde o princípio” (1 Jo 3.8). Nos dois textos, a expressão “desde o princípio” não implica que Satanás é mau desde o início da criação do mundo, nem desde o princípio da sua existência, mas sim desde a fase inicial da existência do mundo. Se caracteriza por ter dado origem ao pecado e por tentar os outros ao pecado.

Os demônios se opõe a toda a obra de Deus tentando destruí-la. Assim como Satanás levou Eva a pecar contra Deus, também tentou Jesus a pecar e assim falhar em sua missão de Messias (Mt 4.1-11). As táticas de Satanás e dos seus demônios são a mentira (Jo 8.44), o engano (Ap 12.9), o homicídio (Sl 106.37) e todo o tipo de ação destrutiva no intuito de fazer as pessoas se afastarem de Deus (Gl 4.8). Também procuram usar a tentação, a duvida, a culpa, o medo, a confusão, a doença, a inveja, o orgulho, a calunia, ou qualquer outro meio para obstruir o testemunho e a utilidade do cristão.

Os demônios estão limitados pela soberania de Deus e têm poder restrito. A história de Jó deixa claro que Satanás podia fazer só o que Deus lhe permitia, e nada mais (Jó 1.12; 2.6). Os demônios são mantidos em “algemas eternas” (Jd 6), e os cristãos podem muito bem resistir-lhes por intermédio da autoridade que Cristo nos legou (Tg 4.7). Além disso o poder dos demônios é limitado. Depois de rebelar-se contra Deus, eles já não tem o poder que tinham quando eram anjos, pois o pecado é uma influência debilitante e destruidora. O poder dos demônios, embora significativo, é portanto provavelmente menor do que o dos anjos. No campo do conhecimento não devemos pensar que os demônios podem prever o futuro, ler a nossa mente ou conhecer nossos pensamentos. Em muitas passagens do Antigo Testamento, o Senhor se distingue como o Deus verdadeiro, em oposição aos falsos (demoníacos) deuses das nações, pelo fato de só ele conhecer o futuro: “eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam.” Isaías 46:9,10

Mesmo os anjos não sabem o tempo da volta de Jesus (Mc 13.32), e as escrituras tampouco indicam que eles ou os demônios saibam qualquer coisa sobre o futuro. Com respeito aos nossos pensamentos, a Bíblia nos diz que Jesus conhecia os pensamentos das pessoas (Mt 9.4; 12.25; Mc 2.8; Lc 6.8; 11.17) assim com o Pai (Sl 139.2; Is. 66.18), mas não há indicação de que anjos ou demônios possam conhece-los. De fato, Daniel disse ao rei Nabucodonosor que ninguém falasse segundo qualquer outro poder senão o do Deus do céu, e assim saberia de fato o significado de seus sonhos:

Respondeu Daniel na presença do rei, dizendo: O segredo que o rei requer, nem sábios, nem astrólogos, nem magos, nem adivinhos o podem declarar ao rei; Mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios; ele, pois, fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de acontecer nos últimos dias; o teu sonho e as visões da tua cabeça que tiveste na tua cama são estes. Daniel 2:27,28

Mas como explicar membros de seitas ocultistas que parecem adivinhar o que comi no café da manhã ou o que disse em uma conversa telefônica, dando detalhes precisos de algo da minha intimidade? É possível explicar estes fatos com a compreensão de que eles podem observar o que acontece o mundo e assim revelar aos seus membros destas seitas. Por isso devemos estar em constante oração e não nos deixar envolver por estranhos comportamentos ocultos, pois isso não significa que Deus participou algum dos seus atributos incomunicáveis com eles. Bem pelo contrário.

Nossa relação com essa realidade

Algumas pessoas, influenciadas pela cosmovisão naturalista, que só admitem a realidade que se pode ver, tocar ou ouvir negam que existem hoje demônios, argumentando que a crença nessa realidade reflete uma visão de mundo obsoleta ensinada na Bíblia e em outras culturas antigas. Um exemplo é o teólogo alemão Rudolf Bultmann, que foi um estudioso do Novo Testamento, negava enfaticamente a existência de um mundo sobrenatural de anjos e demônios. Argumentava que isso não passava de “mitos” e que era necessário “demitizar” a mensagem do Novo Testamento, eliminando estes elementos para que o Evangelho fosse recebido por pessoas modernas, doutrinadas pela ciência. O resultado é uma Europa secular, dominada pelo maligno cada dia mais longe de Jesus. Outros propõem que o equivalente contemporâneo da atividade demoníaca mencionada nas Escrituras é a influência poderosa de organizações e “estruturas” da sociedade atual, governos malignos e ateístas que controlam milhares de pessoas, representados inclusive nos escritos de teólogos mais liberais. Antes eu dizia “procure a igreja evangélica mais perto de casa”. Hoje a instrução é: “procure a Igreja mais perto da Bíblia”.

As Escrituras nos explicam o mundo como verdadeiramente é, que nada é novo debaixo do sol, então precisamos levar a sério o panorama de intenso envolvimento demoníaco na sociedade e pregar o Evangelho com veemência. Somente sob o pastoreio de Jesus alguém se torna protegido dos intentos do maligno (1 Jo 5.18). Não há razão para pensar que hoje haja menos atividade demoníaca no mundo do que havia no período do Novo Testamento. Estamos no mesmo período do plano global de Deus para a humanidade, a era da graça (ou da Igreja = nova aliança). O fato de muitos negarem a influência maligna no mundo não significa que não existam, mas é resultado de que Satanás cegou a muitos (2 Co 4.4).

Percebemos notoriamente que a Bíblia, em sua ênfase global, exorta os irmãos a não pecarem para não abrirem brechas ao mal. O mal vem em parte, mas não totalmente de Satanás, especialmente na vida dos crentes. Em 1 Coríntios Paulo se posiciona sobre as divisões não pedindo que exortem o “espírito de divisão”, mas que os irmãos falem e pensem a mesma coisa e se mostrem “unidos na mesma disposição mental e no mesmo parecer” (1 Co 1.10). Diante do problema do incesto, não diz que seja repreendido o espírito do incesto, mas sim que se mostrem indignados e exerçam a disciplina na igreja até que o culpado se arrependa (1 Co. 5.1-5). Diante do fato de cristãos irem ao tribunal contra irmãos não pede que repreenda o espírito litigante, mas exorta resolver com os líderes da igreja em amor e graça as divergências (1 Co 6.1-8). Embora eventualmente Jesus e os apóstolos expulsassem um espírito demoníaco, que provocava obstrução considerável à proclamação do Evangelho em determinada região (Mc 5.1-20 / At. 16.16-18), esse não é o modelo de ministério comum que se apresenta, pois a ênfase é a proclamação do Evangelho. Um flagrante contraste com aqueles que hoje enfatizam a “batalha espiritual estratégica” e façam um verdadeiro palco de show do inimigo.

Todavia Jesus dá autoridade a todos os crentes de repreender demônios e de ordenar que saiam. Quando Jesus enviou os doze discípulos a frente dele para pregar o reino de Deus, “deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios” (Lc 9.1). Depois de pregar o reino de Deus em cidades e vilarejos, os setenta voltaram exultantes, dizendo: “Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!” (Lc 10.17). Jesus então lhes falou: “Eis aí vos dei autoridade […] sobre todo o poder do inimigo” (Lc 10.19). Quando Filipe, o evangelista, desceu até Samaria para pregar o evangelho de Cristo, “espíritos imundos saíram de muitos que os tinham” (At. 8.7) e Paulo usou a sua autoridade espiritual sobre os demônios para dizer a um espírito de adivinhação que entrara numa moça: “Em nome de Jesus Cristo, eu te mando: retira-te dela” (At.16.18).

Paulo estava ciente da autoridade espiritual que tinha, tanto em confrontos face a face como o de Atos 16 como nas suas orações. Disse ele: “Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas.” 2 Coríntios 10:3,4.

Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar; Ao qual resisti firmes na fé. 1 Pedro 5:8,9

No poder e no nome de Jesus temos plena vitória sobre todo e qualquer efeito do mundo das trevas. Consagrados e adorando em espírito e em verdade teremos paz e seremos fonte de luz a muitos acorrentados pelos grilhões da morte com que Satanás os prendeu. Glórias a Jesus Cristo, Senhor e salvador nosso por tanto amor e pelo pastoreio de todo o que crê. Ele de forma altruísta e amorosa foi valente para passar pela cruz, para que “por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o Diabo (Hb 2.14). Ele “despojou os principados e potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz (Cl. 2.15).

Sim, somos mais que vencedores pela fé em Cristo e temos sido revestidos de poder. Mas a guerra ainda não acabou. Vigiemos portanto.

 

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