“Como não sabeis discernir este tempo?” (Lucas 12.56)

Filosoficamente contestado, didaticamente utilizado, o termo “pós modernismo” é exaltado por uns e execrado por outros. Trans-modernidade, ultra-modernidade, modernidade tardia são termos alternativos a era em que vivemos. Alguns ousam apregoar que vivemos uma pós-pós moderna. A Data de início também debatida: Pós segunda guerra mundial? Chegada do homem à Lua? Invenção do computador?

A pós modernidade é uma hidra, na qual cada uma de suas cabeças mostram o relativismo com que tudo é tratado. Isso molda o ensino de Paulo destacando as 19 características, tais quais apresentam enorme similaridade com ideologias e práticas pós modernas.

Paulo chama a atenção de Timóteo, primeiramente, a caracterização geral do tempo, da ocasião do kairós: “Timóteo, sabe porém isto: nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis” (kairói chalepói: tempos trabalhosos, tempos árduos). Diante de tantos elementos escatológicos que o apóstolo poderia apresentar, ele escolhe o mais nítido e mais evidente sinal dos últimos dias: o homem. A seu filho na fé, Paulo diz: “pois o homem será”; ou seja, haverá características muito visíveis no ser humano que permitirão ao cristão perceber sinais do fim, através do evidente sinal da transformação do ser humano. Não sabemos quando será o fim (Mt. 24.36). Entretanto existem diversas semelhanças entre as ideologias e práticas pós modernas com as características que a Bíblia descreve sobre o homem dos últimos dias;

O HOMEM DOS DIAS DIFÍCEIS

A Bíblia diz que o homem seria “Egoísta” (filautói – amante de si mesmo). Pode ser observado um paralelo com a ideologia pós moderna de Roger, cantada na década de 80: “ eu me amo e não posso mais viver sem mim”. O humanismo contemporâneo em que o arbítrio do homem é o senhor central das suas decisões, subjaz à música levando o homem a querer poder escolher até mesmo sobre assuntos que não oferecem alternativas. Universidades públicas, mídia televisiva e publicações científicas preconizam enfaticamente o senhorio do homem absoluto, evidenciando a força do humanismo atual. Entretanto, a prática evidencia que quanto mais ferrenho o humanista, menos humanos mostram-se em seus relacionamentos. Em contrapartida, pessoas bem humanas em seus sentimentos e relacionamentos têm pouca identificação com o humanismo.

O homem seria “avarento” (filargyrói – “amante do dinheiro”, “ganancioso”). A similaridade deste homem com a hegemonia absoluta da ideologia capitalista pós moderna é impressionante. O capitalismo exacerbado, como fim e não como meio, resulta na coisificação de pessoas. “Todo mundo tem seu preço”, apregoam os sacerdotes hollywoodianos através das produções cinematográficas. O casamento se banaliza e o divórcio se multiplica no abandono das responsabilidades e na busca de comprar um novo “brinquedo conjugal”;

O mantra do “time is Money” entronizador mental de Mamon resulta na agonização do voluntarismo e amadorismo, dando lugar ao profissionalismo. Isso na ação social é uma desgraça! Quando alcança as igrejas torna uma tarefa hercúlea arrumar voluntários senão por intermédio de investimento financeiro. Acaba gerando a teologia da prosperidade! As pessoas no afã de não dependerem de ninguém querem ser autônomas e o dinheiro, teoricamente, faz isso! A mercantilização da fé é um tiro no pé! Esse materialismo todo está fazendo igrejas, antes  abençoadas na Europa, fecharem! O consumismo passa a ser um estilo de vida e o descarte de coisas e pessoas é normal! Não se deixa de usar algo porque não serve mais, mas porque não está na moda. O acúmulo de coisas bem como seu desperdício são consequências naturais.

O homem do tempo do fim também seria presunçoso (alázones – visão super estimadada de si mesmo). Ele presumiria de si mesmo, mais do que seria. Hoje temos cristalizada na sociedade a geração “eu me acho”, praticamente desconhecedora do Aurélio (que testemunhem as redes sociais). Têm como seu Deus o Google. Geração difícil de ser ensinada, pois julga já saber antes de aprender.

O homem do tempo do fim seria “arrogante” (huperofanói), desdenhoso “aquele que se manifesta fiado na própria força”; prepotente. Isso o leva a ser também blasfemo (desdenhoso das coisas de Deus). Um misticismo superficial e o secularismo apresentam similaridades com esta característica. Dizer-se pertencente a uma religião, atualmente é vintage, quanto mais esotérico ou oriental melhor. Passa um ar cool, intelectual. Porém o descompromisso também aumenta proporcionalmente. Deus é lançado em segundo plano (secularismo), para que o homem tenha preeminência (humanismo).

O homem dos últimos dias “não se deixaria persuadir pelos seus progenitores” (goneusin apeitheis). Programas televisivos como Super Nany expõem o conhecido: a grande maioria dos pais já não tem qualquer autoridade sobre os filhos.

O homem dos tempos do fim seria também ingrato (acharistói – desprovido de gratidão). A capacidade de agradecer e reconhecer seu benfeitor e benfeitoria seria escassa. Seria um período de extrema ingratidão. Um tempo de homens implacáveis, homens que não exerceriam a graça de Deus.

O homem seria ímpio (anósioi – não consagrado, não santo). Andaria sem acompanhamento das Palavras santas e dos deveres religiosos. É interessante notar hoje a aversão ao cerimonialismo. Enquanto o Medievalismo promoveu o ritualismo demasiadamente elevando o cerimonialismo à décima potência, pós-modernismo entrincheirou-se no outro extremo, promovendo aversão a qualquer tipo de cerimônia e ordem.

A Bíblia segue dizendo que o homem seria sem afeição (ástorgoi – sem amor familiar, sem afeto). Isso atinge o envangelho em cheio, pois mina a família e a igreja é feita de famílias, de preferência sadias. Amor familiar é preciso na família nuclear e na família fraterna, senão relacionamentos significativos se tornam inviáveis.

O homem seria sem palavra. Mentiroso (áspondoi – “sem palavra, violador de pactos”). A multiplicação de promitentes e carência de cumpridores é assustadora. É só analisar os vídeos de campanhas políticas, para ver quanta diferença ente discurso e prática. O produto das bombásticas notícias televisivas, informações em demasia por redes sociais e conversas tolas, furtou a capacidade de reflexão às palavras ditas e dos compromissos feitos.

O século XX assistiu a transição do tempo do logos (“palavra”) para a eidos (“imagem”) conduzindo a um imagetismo. É isso o que impregna a muitos, o desejo de aparecer, de ser visto, de estar em foco. O desejo de aparecer é notório no livro dos recordes Guiness Book, onde se avolumam recordes incoerentes e superficiais. Em um tempo imagético, o estético se suplanta o ético, o parecer sobre o ser, o exterior prevalece sobre o interior. Consequentemente a indústria da moda, da beleza, fitness nunca esteve tão aquecida. O culto ao corpo alcança patamares inéditos desconsiderando completamente o ser em sua inteireza: intelecto, emoção e volição.

A Bíblia prossegue enumerando as características do homem do tempo do fim. Ele seria incitador de brigas (diabolói – caluniadores, maldizentes, acusadores). As mortes por discussão no trânsito, processos movidos entre vizinhos, centenas de processos na disputa de uma herança e bens dos pais por parte dos filhos testemunham acerca exacerbação da característica “briguenta” deste homem. As brechas “legais” nos processos, através de argumentos maquiavélicos procura o legal, mas não o que é certo, e quem sabe manipular melhor palavras e argumentos é o que ganha.

O apóstolo prossegue caracterizando o homem como sendo sem domínio próprio (akrateis – ingovernável, incontinente, imoderado). Isto aponta para o excesso que tem tantos exemplos na atualidade. A obesidade mórbida, os excessos de divórcios, a avalanche de informações e a dependência de uma droga ou bebida alcóolica para conseguir sorrir! São evidências dos excessos contemporâneos. Se este homem não consegue se governar, também não deixará ser governado por outrem tendo aversão a qualquer autoridade. O informalismo passa a ser regra. As grandes instituições perdem representação Igreja, família e escola são organizações com comando de ação vertical. Quando o homem não se governa e não se deixa governar o anarquismo se instala e o relativismo ceifa os relacionamentos e os bons princípios que a Palavra de Deus tem para o mundo neles andar. A máxima relativista é ilógica por si mesma: “tudo é relativo”. Se tudo é relativo, “tudo é relativo” também é relativo: pode ser crível ou não, caso contrário se torna um absoluto e deixa de ser relativo. A sentença por si mesma se contradiz. “O homem que diz que a verdade não existe, está pedindo a você que não acredite nele. Então não acredite”.

John Piper escreve:

“O relativismo não é um sistema filosófico coerente. Está crivado de contradições: tanto lógicas como experienciais. Os alunos de faculdade sabem que algo é suspeito quando alguém afirma que a verdade é que todas as verdades são relativas. Eles podem não citar a lei da não-contradição mas estão envolvidos por ela e podem sentir seu cheiro no ar, Afirmar a verdade com uma afirmação que anula a verdade é auto-contraditório. O relativismo sequestra a criada feliz da verdade e torna-a serva do orgulho e do prazer pragmatistas. O relativismo é revolta contra a verdade objetiva de Deus. A existência de Deus cria a possibilidade da verdade. Deus é o padrão essencial e final para todas as afirmações da verdade. Quem Ele é, o que Ele quer, o que Ele diz é o padrão externo e objetivo para medirmos todas as coisas. Quando o relativismo diz que não há qualquer padrão de verdade válido universalmente, fala como um ateísta. Comete traição contra Deus. Ninguém é um relativista quando seu caso está sendo julgado em um tribunal e sua inocência objetiva depende de evidência objetiva. Todo o sistema relativista é um impulso moralmente corrupto. Traz consigo a duplicidade e a hipocrisia. É um grande blefe!”

Respeito e não covardia é o que se espera do cristão. É fundamental nestes tempos difíceis manter convicção sem fazer imposições. Homens de Deus que o amem devem pagar o preço da soberania de Deus e seu Absoluto como dizia Lutero: “Paz se possível, mas a verdade a qualquer custo”.

Hoje como a mídia assumiu o relativismo se tornou quase que uma ditadura! Verdades confessas pela grande maioria, devem se dobrar à mentiras proferidas por minorias, caso contrário sofrerão as penas da ditadura dos ofendidos. Somos filhos de Deus e somos livres. Não devemos nos constranger em defender a verdade!

“Esta atitude mental é hostil a definições precisas. De fato, nada torna um homem mais impopular nas controvérsias contemporâneas do que uma insistência na definição de termos. Em nossos dias, os homens discursam eloquentemente sobre assuntos como Deus, religião, cristianismo expiação, mas ficam grandemente irados quando alguém lhes pedem que expressem em linguagem simples o que pretende dizer com estes termos. O relativismo aparenta-se humilde ao dizer: Nós meros mortais, não podemos saber o que é a verdade – nem mesmo se existe alguma verdade universal. Isto parece humilde. Mas considere atentamente às implicações. Isto é como um servo que está dizendo: Não sou tão esperto para saber qual destes aqui é meu senhor – ou mesmo se tenho um senhor. O resultado é que ele não tem de se submeter a qualquer senhor e pode ser seu próprio senhor. Sua fraqueza alardeada é um artifício para encobrir sua rebelião contra seu senhor.”

Portanto, longe de ser humilde, o Relativismo torna-se categórico ao afirmar a impossibilidade de toda e qualquer verdade absoluta. O resultado é o pluralismo e o sincretismo!

Jesus nos disse como ser edificado na verdade: João 17.17;

A Bíblia diz que os homens seriam violentos (Anémerói – selvagem, sem limites). Infelizmente os noticiários nos mostram que não há evolução nenhuma no homem, que estamos regredindo como sociedade. Verdadeiras atrocidades com requintes de crueldade se espalham na TV. Brigas na escolas aplaudidas por adolescentes e filmadas.  Isso significa que o revide, nos últimos dias, seria desproporcional à ofensa feita.

O homem seria sem amor pelas coisas boas (afilágathoi – disposição para fazer o mal). Vemos que essa atitude é intensificada nestes últimos dias. Quando a pergunta deste homem muda de “é certo?” (deontologia) para “dá certo?” (teleologia) seus princípios estão corrompidos e nada há que se esperar dele. O utilitarismo toma seu grau máximo no ênfase mefistofélica em que os fins justificam os meios. Como amantes enciumados que dizem ter matado por amor. A coisificação do humano se torna natural, como as vitrines de Amsterdã e suas prostitutas.

O homem seria traidor (prodótai – disposto a entregar o outro).

O homem seria precipitado – (propeteis – imediatista). Com a avalanche de informações, o fim da estabilidade familiar e o pertencimento globalizado, a sensação da fugacidade do tempo torna-se mais perceptível. Por isso tantos ansiosos entre nós!

O homem também seria soberbo (tetufomenoi – “inchado como um tufão”). Incapaz de ouvir a outros, de ouvir conselhos e de engrandecer o pensamento através de fatos e a chuva de ideias. Só tem capacidade de ouvir a si mesmo. Isso é o que o João diz em apocalipse: “quem tem ouvidos para ouvir ouça”. Sim a soberba cega e ensurdece.

O homem seria mais “amigo dos prazeres do que amigo de Deus” (filédonoi mallon he filótheoi). O hedonismo elevado à máxima potência. Sua amizade será dada ao que lhe dá prazer. Incapaz de renunciar por amor a Deus ou ao próximo. Uma sociedade pansexualista, tudo gira em torno do sexo! Até programas juvenis hoje exaltam publicamente o que Deus criou para ser privado. O que importa é o sentir.

Por último a Bíblia diz que o homem teria “aparência de piedade, mas negando a eficácia desta” (exontes mórphwsin eusebías tén de dunamin autes ernemenoi). A politicagem imagética também alcançaria o cristão. Cultivando imagem piedosa diante das pessoas, homens inescrupulosos teriam atitudes diferentes dos princípios bíblicos. Agradando a todos, mas descartando exortações e fazendo partidarismos secretos na calada da noite.

Este tipo de homem com estas 19 características tem muitas similaridades com o homem pós moderno.

A Bíblia diz que estes homens aprenderão sempre, sem jamais conseguirem chegar ao conhecimento da verdade (2 Tm 3.7).

ATITUDES COM O HOMEM DOS TEMPOS DIFÍCEIS

Primeiramente é preciso bradar como Paulo afirma ao jovem pastor: “Eu sei em quem tenho crido” (2 Tm 1.2). Mais que um sistema de crenças, é preciso vivenciar um Cristo vivo! Nós somos as Bíblias que muitos vão ler uma única vez na vida. A lógica cartesiana da observação, foi trocada pelo relativismo, multiplicando metodologias. Há que se examinar e obter um arcabolço teólogo/filosófico sobre todas as coisas! A bíblia facilita isso!

É fundamental aprender a aprender. A Bíblia nos ensina a estar sempre prontos a responder a qualquer um que pedir a razão da nossa esperança (1 Pedro 3.15).

Caminhar na contra-mão. Se estas 19 peculiaridades são implementadas pelo princípe deste século, eu faço tudo o que é contrário a ela. Ser cristão é andar na contra mão do curso mundano:

Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. Que todo o espírito, alma e corpo de vocês seja conservado irrepreensível na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.
1 Tessalonicenses 5:23

Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação,
pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele.
Colossenses 1:15,16

Que a paz de Cristo seja o juiz em seus corações, visto que vocês foram chamados a viver em paz, como membros de um só corpo. E sejam agradecidos.
Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seus corações.
Colossenses 3:15,16

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